Cigarro Atrai Menores De 13 A 15 anos

CLARRISSA THOMÉ

Metade dos adolescentes com idades entre 13 e 15 anos já comprou cigarro, apesar de o País dispor de lei federal que proíbe a venda do produto para menores de idade. Entre as meninas, o porcentual é um pouco maior: 52,6% ante 48,1% para os meninos. A proporção de mulheres que começou a fumar antes dos 15 anos também é superior à dos homens – 21,9% para elas e 18% para eles.

Os dados fazem parte do livro A Situação do Tabagismo no Brasil, que o Instituto Nacional de Câncer (Inca) divulgou ontem, Dia Nacional de Combate ao Fumo. O material reúne dados de três pesquisas do Sistema Internacional de Vigilância do Tabagismo da Organização Mundial da Saúde (OMS) realizadas no Brasil entre os anos de 2002 e 2009.

Como o levantamento foi feito com públicos e lugares diferentes, em ocasiões distintas, a diferença na proporção de meninas e meninos fumantes muda de uma capital para outra do País. Em São Paulo, por exemplo, 38% das garotas entrevistadas disseram já ter fumado pelo menos uma vez, contra 29,7% dos garotos. Em Porto Alegre, a diferença foi de 52,6% para elas e 38% para eles.

Em Curitiba, 46,9% das meninas disseram ter experimentado cigarro, ante 35,7% dos meninos. No Rio, 36,5% das jovens fumaram ao menos uma vez, e, entre os meninos, o índice foi de 29,5%. A gerente da Divisão de Epidemiologia do Inca, Liz Almeida, lembra que são claras as leis que proíbem a venda de cigarros para adolescentes. “Não é possível que os órgãos competentes deem conta de fiscalizar todos os bares, padarias, bancas de jornal”, diz ela.

“Não cabe uma ação coercitiva. Mas cabe a nós, cidadãos, chegar até o dono do estabelecimento e falar sobre os motivos da proibição. Cabe lembrar que para o jovem desenvolver essa dependência, significará o surgimento precoce de doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer, que vão tirar a vida dele mais cedo do que deveria.”

Para a organização não governamental Aliança de Controle ao Tabagismo (ACT), é preciso restringir ainda mais o acesso ao cigarro. “Há uma exposição excessiva das embalagens. Elas estão ao lado de balas, chocolates, um tipo de produto atrativo para crianças ainda menores. É preciso diminuir a exposição do cigarro”, diz a diretora executiva Paula Johns.

“Não se trata de proibir a venda, mas o cigarro tem de ser comercializado com responsabilidade. Um produto que mata um em cada dois consumidores precisa ser regulado”, acrescenta Paula.

‘Eu sabia que fazia mal, mas acabei entrando nessa’

O levantamento feito pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) mostra que 77,9% dos fumantes experimentaram cigarro com menos de 20 anos de idade. O modelo Théo Mariotti, de 18 anos, tinha apenas 12 quando fumou pela primeira vez.

Filho de uma especialista em saúde pública, ele conta que em casa não faltava informação sobre o mal que o produto causaria. “Era uma modinha na escola. Eu sabia que fazia mal, mas acabei entrando nessa”, relata.

Os primeiros cigarros, ele comprava por unidade, principalmente em bancas de jornal. “Padarias e supermercados são mais rígidos para vender para criança. Às vezes não aceitavam vender para mim”, relembra.

Aos 14, Mariotti começou a comprar maços. Fumava escondido da família, na saída da escola, na casa de amigos, em festas, na rua, no playground. “Fumava em qualquer lugar em que não tivesse parentes. Só contei para a minha mãe aos 16, porque já não dava mais para esconder.”

Uma das preocupações de especialistas quando o assunto é o vício entre adolescentes e quanto à adição de sabores adocicados ao cigarro – menta, canela e chocolate –, como forma de atrair o público jovem. “É um veneno embrulhado para presente”, compara a gerente da Divisão de Epidemiologia do Inca, Liz Almeida.

Mariotti explica que a estratégia da indústria de adicionar sabores ao cigarro pode funcionar com outros fumantes jovens, mas nunca teve apelo com ele. “Na verdade, ninguém fuma pelo gosto”, acredita o rapaz. “Mas depois de um tempo você simplesmente não consegue parar”, tenta explicar.

No início deste ano, o modelo resolveu deixar o cigarro. A preocupação era com a saúde. Já sentia falta de ar para fazer esportes, não tinha disposição para caminhadas ou corridas. “Foi muito difícil parar. Eu não tinha ideia da dificuldade que seria. Senti irritação, falta de ar, ansiedade. Não era uma ansiedade de quem estava esperando por alguma coisa. Era uma ansiedade generalizada, o tempo todo”, afirma o modelo, que está há cinco meses sem fumar. “Não desejo isso para ninguém.”

Matéria Extraída do Jornal da Tarde, Caderno Cidade, Seção Saúde, de 30 de agosto de 2.011. 

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